16 February 2008
Guest Blogger (Rom)
Published on February 16th, 2008 @ 05:01:51 pm, using 2507 words, 358 views
The following is the Portuguese-written version of a real life ‘lost in translation’ experience first recounted to me last year that quickly became one of the most memorable and funniest stories I’ve ever been told and which went on to inspire A Rom-inspired Blog.

A importância do domínio da língua inglesa na atualidade
by Romulo (Rom) Araújo
Que o inglês deixou de ser requisito diferenciador entre as pessoas, como era até a um tempinho atrás, todos já estão cansados de saber. Hoje em dia a língua inglesa não é considerada como um idioma a mais na sua formação, mas sim uma língua obrigatória. A história que vou contar tem um pouco a ver com o não domínio da língua e como isso pode te deixar em situações bastante embaraçosas (ou engraçadas, como preferirem).
O trabalho com produção artística sempre envolve grandes aventuras, é verdade; quem já teve a oportunidade de participar de alguma produção conferiu de perto como o ritmo de trabalho é particular e totalmente intenso e frenético. Em uma das muitas produções em que trabalhei vivi uma situação que ficará para sempre na minha memória: os dias que passei com os indianos.
Estávamos produzindo um Festival Internacional de Teatro de Bonecos aqui no Rio e recebemos grupos de Barcelona, do Japão, do Peru e da India. Sempre tive um fascínio imenso pela cultura indiana; aqueles deuses incríveis, o terceiro olho que eles usam na testa, as roupas, a sacralização da vaca, os filmes de Bollywood (sim, existe um grande pólo cinematográfico na India que se chama Bollywood e produz mais filmes que a Hollywood americana). Quando soube que eu iria estar tão próximo assim de indianos fiquei excitadíssimo e não via a hora da chegada do grupo. Meu inglês, na época, não era tão horrível nem tão elementar; eu conseguia me comunicar com eles via email com facilidade, tudo em inglês, claro.
No dia em que eles chegariam no aeroporto acordei cedo, empolgado como nunca, afinal, eles eram indianos de verdade e estariam sob meus cuidados na cidade maravilhosa. O hotel escolhido era estrategicamente localizado na minha rua, o que facilitaria minha convivência com os integrantes de todos os grupos que participariam do Festival. Lá fui eu pro aeroporto juntamente com a minha estagiária baiana e uma atriz que aceitou um freela para ser motorista do pessoal (ela tinha um carro imenso, uma Land Rover, no entanto não media mais que 1,60m de altura e era magrinha que só vendo. Sem contar que, como a maioria das atrizes de teatro, ela era um tanto quanto, digamos, descompensada para ser mais sutil).
Antes da hora marcada lá estávamos nós para recebê-los. Estranho receber pessoas que nunca vimos na vida, então para facilitar o reconhecimento a nossa queria atriz-motorista levou de casa uma “plaquinha” de papel onde ela escreveu o nome do líder do grupo. Até aí tudo certíssimo, tinham várias pessoas segurando placas com nomes como Sra. Valéria, Sr. Antônio, Daniel, até que nossa querida abre sua plaquinha onde podia ser lido: Dattatreya Arilakate Kamarao. Nunca mais na minha vida vou esquecer desse nome.
Quando ela abriu a “plaquinha’, umas 5 folhas de papel A4 coladas, eu e minha estagiária tivemos um acesso de riso descontrolado e eu já comecei a desconfiar que seriam dias de emoções intensas.
Eu estava nervoso e, a essa altura do campeonato, hiper envergonhado. Muita gente no aeroporto olhava nossa pequena plaquinha sem entender muita coisa do que estava escrito e nada me tira da cabeça que uns curiosos ficaram por perto esperando nossos convidados desembarcarem só para verem quem tinha aquele nome da plaquinha.
E é chegada a hora. Coração batendo forte com medo de não reconhecê-los no meio de tanta gente até que o portão de desembarque se abre e dele saem 4 pessoas totalmente diferentes da “nossa gente". 3 homens e 1 mulher, todos devidamente indianizados, com sarongues, terceiro olho, as peles morenas, cabelos lisos e os típicos bigodinhos indianos. Como eu poderia imaginar que não os reconheceria?
“Datta!", bradei eu saudando o líder do grupo. “How are you?", perguntei gastando meu inglês escasso. Ele respondeu em inglês com um sotaque indiano carregado. O som emitido parecia com o de um caranguejo abrindo e fechando suas garras de tão seco e cortante. Não à toa nossa atriz-motorista, casada com um inglês, estava ali para me salvar de qualquer situação em que eu não entendesse nada.
Os 4 carregavam pesadas malas de ferro, o que chamava mais atenção ainda. Além dos trajes típicos da India aquelas malas de ferro reluziam com a luz do sol que entrava pelo saguão do aeroporto. Fui ser gentil, claro, e tentei carregar uma das malas, a da mulher do grupo, e não consegui levantar nem a 1 cm do chão. Por sorte o carregador do aeroporto chegou e me ajudou.
Ainda no saguão, tomados pela emoção de nos encontrarmos pela primeira vez depois de tantos meses trocando emails, eu e minha equipe fomos “abençoados” com uma espécie de benção indiana. Emocionante.
Aquela era apenas a primeira escala do nosso dia juntos. Chegamos ao hotel e os integrantes dos outros grupos me esperavam no foyer. Em uma questão de segundos me vi numa verdadeira Torre de Babel, com indianos, peruanos e um japonês perguntando coisas que eu não sabia responder nem tampouco estava entendendo. Com o jeitinho brasileiro continuei sorrindo de orelha a orelha até que nossa atriz-motorista os levasse até o teatro, me deixando sozinho com os 4 indianos pela primeira vez.
Deixei-os descansar e na hora marcada lá estava eu para levá-los para conhecer o teatro onde se apresentariam no dia seguinte. Sem carro e sem domínio de uma forma de me comunicar com eles aquele deslumbramento começou a se transformar em nervosismo. Meu Deus, estou sozinho nessa cidade com 4 indianos, se algo acontecer a eles estou encrencado. Se algum deles se perder de mim? Se algum deles for assaltado? Tentei manter a calma e recebi, mais uma vez, a energia positiva que eles faziam questão de compartilhar comigo.
“Come on, let´s go to the theatre". Eu falava uma frase ensaiada e eles, claro, achavam que eu sabia falar muito bem e entendia tudo o que eles diziam, então começavam a falar desesperadamente e eu, cariocamente, sorria mais e mais.
“Vocês preferem ir até o teatro de metrô ou de táxi?", perguntei sem pensar. De metrô seria mais barato para a produção, uma vez que estávamos no Flamengo e o teatro era na estação São Francisco Xavier, em frente á saída do metrô. De toda forma não caberiam todos nós no taxi, afinal eram 4 indianos caracterizados e eu. Muito gentis eles preferiram ir de metrô por ser mais barato que o táxi.
Eu já não tinha mais consciência do que estava acontecendo à minha volta. Estava morrendo de vergonha porque como eles estavam hospedados na minha rua e sairam do hotel indianizados, meu vizinhos me paravam no caminho até o metrô e me perguntavam: “onde é o carnaval, Romulo".
Ah sim, importante essa parte. Meu nome é um tanto quanto complicado para ser dito por pessoas de outros países (brasileiros como o meu porteiro têm dificuldades de pronunciá-lo também, mas isso não vem ao caso agora). Não sei se por começar com a letra “erre” e ter ainda um “elle” no meio as pessoas enrolam a língua e não conseguem falar. Com os indianos não foi diferente, claro, e durante 3 dias me chamei “ÔMÚLÚ".
“Brilhante idéia, ÔMÚLU", pensei eu quando me toquei que era sexta-feira, 6 da tarde e estávamos indo em direção à zona norte. “O que eu faço com essas 4 pessoas fantasiadas me seguindo?".
O trem pára na estação, entramos os 5 com uma certa dificuldade porque, lógico, já estava bastante cheio o vagão. “Sorry for this", envergonhado pedi desculpas pelo apertamento. O mais novo do grupo, Karthek, diz que na cidade deles o metrô é muito mais cheio e nem ar condicionado tem, ou pelo menos foi isso o que eu quis entender. O restante do grupo, deslumbrado com a limpeza do metrô, sorri e conversa na sua língua local, provocando curiosidade nos demais passageiros que olhavam achando engraçado.
Para piorar a minha situação estava passando na época a novela “O Clone", onde tinham muitas mulheres com a vestimenta igual a da integrante do grupo indiano. Alguns passageiros mais piadistas ainda faziam o som que a personagem Jade emitia com a boca, uma espécie de “cacarejo” do oriente.
As portas do trem se fecham, eu seguro o ferro que fica localizado no centro do vagão porque não queria me desequilibrar quando o trem arrancasse. Numa fração de segundos eu entrei em pânico! O trem iria arrancar e os indianos estavam totalmente dispersos entre o povo. Na minha cabeça dramática eu os visualizei se desequilibrando, caindo e sendo motivo de piada até o final da viagem.
Nessa hora eu pensei comigo mesmo “pu*&%*¨& que par&$$¨&, como eu falo para eles se segurarem no ferro em inglês????” Sei que tudo não demorou mais que alguns segundos, entre a porta se fechar e o trem arrancar, e eu apelei pra mímica. Não tinha jeito. Eu não fazia idéia de como falar para eles segurarem no ferro em inglês e precisava agir rápido. Fiz um gesto para que o Karthek se segurasse no ferro, e ele de fato se segurou sim, mas não no ferro do metrô, mas sim na minha cintura!
Pois é, eu segurando no ferro do metrô e um indiano se segurando na minha cintura! Quando o restante do grupo viu a cena perceberam na mesma hora que era para se segurarem também para evitar o acidente que eu estava prevendo. Eles então, imitando o gesto do mais novo do grupo, começaram a se engatar uns nos outros. Eu em pé segurando no ferro, Karthek se segurando pela minha cintura, o pai dele, líder do grupo, se segurou na cintura dele e assim ficaram os 4 engatados em mim. Da mesma forma que eu não soube mandar eles se segurarem eu não fazia idéia de como poderia mandar eles me largarem! Peguei na mão do Karthek e coloquei-o segurando onde era para ser. Ufa! Eu não sabia onde poderia enfiar minha cara que, certamente, estava mais vermelha que um tomate.
Ao chegarmos ao teatro eles se ajoelharam na porta de entrada e beijaram o chão antes de entrar. Eu agarrei minha chefe e a beijei com uma sensação de alívio por ter, finalmente, despachado aquele grupo exótico.
Naquele dia um outro desafio ainda nos aguardava, só que dessa vez eu não estava sozinho. Como todos sabem os indianos não comem carne vermelha porque no país deles a vaca é sagrada. Depois de um dia inteiro ensaiando no teatro eles estavam, assim como nós da produção, famintos. Mas a questão agora era, onde levá-los para comer às 2 da manhã no Rio?
Vamos ao Lamas, idéia da minha chefe. Lá tem um prato só com legumes delicioso e eles vão gostar. Tudo bem que eles não comam a coitada da vaca, mas a gente come! No entanto seria muito desrespeitoso comer uma na frente deles.
Nossa trupe chega até o restaurante e o garçom habitual vem nos receber. “Que bom, temos convidados hoje", muito simpático vem nos cumprimentar. Fizemos o pedido do prato especial para os indianos, sem carne e, como era um garçom conhecido e camarada, pedimos a ele para fazer os nossos pratos com carne mas ele tinha uma missão ultra importante antes de servir à mesa nossa refeição: dar um jeito de esconder cada pedacinho de vaca que tivesse no prato.
Ele, muito sabido e descolado e, sem querer perder a freguesia, aceitou nosso desafio. Passados alguns minutos chegam os pratos e os nossos cobertos com um molho escuro e batatas cozidas em grandes pedaços. Não é que o garçom conseguiu camuflar os pedaços de carne picada dentro das batatas e, para disfarçar mais ainda, mergulhou tudo num molho delicioso. Ninguém sequer percebeu que estávamos comendo um animal sagrado ao lado deles. Nenhum mugido foi escutado também, para nossa sorte.
Os dias de Festival se passaram, fiquei naturalmente amigo do mais novo que tinha a minha idade e trocávamos idéias sobre música brasileira e costumes indianos. Ele queria conhecer mais da nossa música e eu então fiz um cd com muitas canções de Tom Jobim, Daniela Mercury e Zélia Duncan, artistas que eu gosto e estava ouvindo muito na época.
Fui levá-los até o aeroporto onde partiriam de volta ao seu país. Com as pesadas malas lá fomos nós. Muitos beijos, abraços e troca de energia na hora em que eles entraram na sala de embarque.
Mais uma vez fui “abençoado” pelo líder enquanto minha estagiária, chorando compulsivamente, queria ir com eles de qualquer maneira dizendo que foi tocada pela cultura indiana e que tinha descoberto um caminho para atingir o nirvana. Não, ela não ficou com nenhum deles durante a passagem do grupo, apenas sentiu uma descoberta espiritual graças à energia que eles emanavam.
Quando a porta da sala se fecha vejo vindo na minha direção uma conhecida com um sorrisinho sarcástico; ela pára perto de mim, me dá um beijo e pergunta: “bonita a despedida de vocês, eles são mesmo indianos"?
Sim, são indianos e estão levando seu cd para a India na bagagem, Zélia.
“Que legal, tomara que faça sucesso por lá", ela completou.
Minha experiência com a India não chegou a ser traumatizante, pelo contrário. Achei tudo muito engraçado e tirei uma lição importantíssima com isso: de nada adianta você ser um grande jogador de imagem e ação e fazer mímicas incríveis se você não souber falar inglês. Ou você domina a língua inglesa ou pode se enrascar com 4 indianos engatados em você dentro de algum transporte coletivo.
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